Este mês o Entrevistado é Daniel Fernandes, licenciado em Genética e Biotecnologia na UTAD, mestrado em Evolução e Biologia Humanas na UC, e um adepto dos intercâmbios juvenis.
Retalhos de Uma
Memória Perdida: Conta-nos, quem é o Daniel Fernandes?
Daniel Fernandes:
Neste momento é um cidadão do mundo que por santo acaso nasceu em Portugal, e
que gosta de se sentir útil para a sociedade. Não vejo quaisquer fronteiras
entre os países, nem entre ‘nós’ e ‘eles’. As que vejo, vejo com fascínio.
RM: Tiraste
Licenciatura em Genética e Biotecnologia na UTAD e de seguida Evolução e
Biologia Humanas em Coimbra. Fala-nos dos teus tempos na universidade.
DF: Acho que os
tempos de universidade, e nisto praticamente apenas inclúo a licenciatura,
foram provavelmente o início de uma mudança que cada vez se demarca mais. Antes
disso era bastante caseiro, no sentido de não sair muito para conhecer novas
coisas, experimentar novas sensações, etc. E a universidade significou começar
a ganhar autonomia, viver longe dos pais, gerir dinheiros, ganhar montes de
conhecimentos, cometer loucuras de estudante, praxar e ser praxado (ainda
considero que foi das melhores coisas por que passei)... Os horizontes foram-se
aumentando, a independência crescendo, e o desejo por mais completamente
exponenciado. No aspecto dos tempos de universidade, considero normal do meu
ponto de vista; no que veio a mudar em mim gosto de pensar que foi algo espetacular!
RM: O porque
deste percurso académico?
DF: Ainda hoje
não sei bem o por quê da Genética ter vencido a outras. Eu sempre tive a ideia
de ser cientista, nunca especificamente em Genética; mas de facto a Biologia e
a evolução no geral era o que eu achava mais interessante. No entanto também
sempre adorei história e daí a escolha do mestrado em Evolução e Biologia
Humanas, tendo como objectivo juntar genética, evolução e história tudo no
mesmo pote. Assim poderei, eventualmente, trabalhar com DNA antigo e moderno em
contextos evolutivos do Homem e/ou históricos.
RM: Alguma
história engraçada que gostes de recordar dos tempos de capa negra ao ombro?
DF: Eu gosto
sempre de recordar as praxes – quando praxei e quando fui praxado. Venha quem
vier, apoio completamente as praxes porque tenho consciência que a nossa praxe
foi avassaladoramente integradora para os seus participantes! O que os outros
cursos fazem não sei, mas os caloiros e a praxe de Genética e Biotecnologia
foram e serão os melhores! Veja-se até pelas Latadas... eheheh
RM: Dizem que os
nossos tempos de capa negra são os melhores da nossa vida, pois vivemos grandes
aventuras e conhecemos que vão sempre ficar connosco. Corroboras esta
afirmação?
DF: Sinta-se
corroborado. Serão dos melhores sim, embora não ache que sejam o best dos
bests. Mas sem dúvida que são a grande porta para o futuro e o crescimento de
cada um!
RM: Foste fazer
parte da tua tese de mestrado à Irlanda. Fala-nos das diferenças que sentiste.
DF: Em termos
culturais ou profissionais? Logo culturalmente achei muito estranho uma grande
parte das pessoas do país pararem às 18h num dia dos finais de Setembro para
fazer um brinde ao criador da cerveja Guiness!... Em termos de desporto fiquei
fascinado ao ver que praticamente todos os jovens, e mais especificamente
universitários, praticavam alguma coisa. Mesmo com 7 graus negativos a arena
desportiva estava sempre cheia, e realmente mexer é a melhor forma para não
congelarmos! Os famosos pubs irlandeses são um universo muito porreiro porque
têm quase sempre música ao vivo com gajos que tentam sempre envolver o público e
recebem gente de todas as idades ficando com um ambiente muito acolhedor
naquele frio. Culturalmente fez-me alguma comichão as noitadas deles começarem
muito cedo, tipo 20h! As festas da universidade começavam por vezes às 19h...
Isto porque os bares fecham maioritariamente à meia-noite e as discotecas às 2h
da manhã.
Em termos profissionais foi misto. Mas no geral as condições
do local onde eu estava eram melhores do que cá. Os professores deram bastante
(se calhar até demais) liberdade mas sempre apoiaram tudo. Até me deixaram ser
o primeiro a testar e avaliar a precisão de um scanner 3D que tinham acabado de
comprar!
Ah é verdade, era tudo caríssimo!!
RM: Estão
realmente os alunos das unis portuguesas preparados para ir lá fora e marcar a
diferença?
DF: Não te sei
responder a essa pergunta... Acho que obviamente depende da personalidade de
cada um. No entanto, embora não seja adepto do ‘desenrascanço crónico’, isso de
facto é uma coisa que nos distingue.
RM: Tiveste dois
meses a trabalhar numa empresa de arqueologia e agora vais concorrer a dois programas
doutorais lá fora continuando a mesma área académica que tens vindo a
percorrer. O porquê de seguir o percurso académico lá fora?
DF: Esta é a mais
fácil de responder! Porque em Portugal não há laboratórios a trabalhar com DNA
antigo. No entanto...mesmo que houvesse, preferia fazer doutoramento lá fora e
conhecer novos métodos de trabalho e mais tarde eventualmente voltar a Portugal.
RM: Já foste à
Grécia, Hungria, Dinamarca, Turquia e Suíça em programas juvenis. O que te move
nesse sentido?
DF: Eu comecei
nisto em 2009 com um programa da Comissão Europeia chamado ‘Serviço Voluntário
Europeu’ (SVE). Conheci-o porque na associação da minha terra onde participo
desde os meus 11 anos, foram recebidos dois desses jovens em SVE quando eu
andava no 12º ano e na altura adorei a ideia. Como no 4º ano da licenciatura
tive um semestre livre, aproveitei e fui experimentar! Desde que voltei de lá
tenho-me envolvido mais no associativismo juvenil, principalmente no SVE pois a
nossa associação envia e recebe voluntários, e essas viagens que referes
integram-se em formações através de educação não-formal. Os dois últimos países
de que falaste, Turquia e Suiça, foram mais fóruns de discussão e conferências
sobre participação activa e liderança juvenil, que está ligado ao voluntariado
e ao associativismo.
RM: Como é a
experiência de conhecer novas pessoas de diferentes culturas? O que muda em ti?
DF: Depende
completamente de cada um... Se vais com o pensamento que A é isto e B é aquilo
e vejas o que vires isso voltará igual, então da próxima fica em casa. O ganho
que conseguirás obter depende da tua vontade em obter algo, em ires conhecer
com uma mente aberta. Viver num ambiente multicultural em que não te interessa
nem intriga a forma como os outros pensam, agem, reagem e riem, e onde acções
‘estranhas’ são apenas bonitas de se ver mas que não são respeitadas ou
tentadas entender, é completamente contra-producente... Todas as acções têm
razão de ser e ninguém tem o direito de as criticar sem as perceber primeiro.
Não sou, nem tu és mais do que ninguém só porque nasceste e crescente num
ambiente diferente; todas as culturas são ricas e só absorvemos essa riqueza
quando abdicámos, de certa forma, de agir pelos nossos padrões e nos deixamos
sair para lá da nossa zona de conforto.
RM: Alguma
experiência que te marcou e váz sempre recordar?
DF: O
voluntariado que fiz na Grécia foi, sem margem para qualquer dúvida, a
experiência que mais me marcou e moldou a minha personalidade. Infelizmente não
há palavras que demonstrem sequer a emoção que sinto quando vejo fotos e
filmes...
RM: Em forma de
fecho, alguma palavra aos leituras no sentido de saírem e conhecerem novas
culturas?
DF: Amigos e amigas, compinchas e comadres, as fronteiras
só estão no papel! Ponham-se daqui pra fora e não metam pés em resorts
turísticos! Fiquem em hostels, conheçam pessoas!... Aproveitem as oportunidades
que o facto de vivermos na Europa nos dá. Há imensas oportunidades financiadas
pela União Europeia de ir para fora por muito e pouco tempo para aprender novas
coisas, conhecer novas pessoas e formas de pensar... SVE, ERASMUS, LEONARDO,
Intercâmbios, Formações, you name it!! Qualquer dúvida e ajuda, contactem-me!
:) dani_fernandes00@hotmail.com
Entrevista levada a cabo por Daniel Pardejo. Fotos cedidas por Daniel Fernandes.




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